terça-feira, 14 de julho de 2015

NOVOS TALENTOS #04 - RITA INZAGHI

Há já algum tempo que não deixava aqui o meu contributo para a divulgação do lado mais humano dos novos talentos da literatura portuguesa e é com todo o gosto que volto com Rita Inzaghi, que conheci através do seu livro "Ponto Zero".

A conversa (virtual) com a escritora foi muito agradável e ambas sentimos uma grande empatia e cumplicidade pela outra, ao ponto da "entrevista" quase parecer uma conversa entre amigas.

Eu gostei!
Obrigada, Rita, por seres uma pessoa tão fantástica!!

Foto de Cinara Paralta Pisco

1- Onde foi buscar inspiração para escrever o livro "Ponto Zero"?

Preciso de contextualizar a minha resposta. Quando me perguntam qual é a estória do Ponto Zero, respondo sempre que a estória do livro é o menos importante. E é. OK, dois irmãos ganharam o terceiro prémio do Euromilhões. E então? Filme de sábado à tarde... Eu trabalhava na TVI em Trás-os-Montes e ia fim de semana sim, fim de semana não a casa, a São João da Madeira. Ligava o MP3 e ouvia de tudo, se bem que passei uma fase em que só ouvia Jeff Buckley e Neil Young. E não sei... fui imaginando cenas, com rostos, com lugares, diálogos... mas sem uma estória. A estória foi a última coisa que inventei. Essas viagens de autocarro, depois comboio, depois carro, inspiraram-me. Vila Real inspirou-me: as noites de Rock no Momai, que era o nosso bar de eleição, muitos filmes que vi na altura, a própria poesia que escrevi (lancei o Ruivo-Tomate em 2010)... O “Visões de Ruby”, por exemplo, é uma cena com a Lana. Mal a Lana sabia que existiria no Ponto Zero... 
  
2- Qual a sua ligação com Santiago de Compostela e porquê a escolha deste lugar como cenário do livro?

Fiz um ano de ERASMUS em Santiago de Compostela em 2006/2007 e fiquei fascinada com a cidade, acima de tudo com aquele contraste sagrado/profano, que é uma espécie de Yin e Yang. E a visão dela que o Ponto Zero retrata é um espelho das minhas vivências lá. O primeiro rascunho do Ponto Zero foi escrito em 2008 e contava a estória de uma rapariga Portuguesa que ia estudar para Santiago e se apaixonava um estudante norte-americano, Luísa e Jimmy. Não era grande estória. Ao fim de 60 páginas, matei o Jimmy e subverti tudo. Já não me identificava com aquilo, não tinha sumo e entretanto fui assaltada pelas tais imagens e tive de lhes dar um sentido. Foi uma urgência. O cenário é Santiago de Compostela, como poderia ter sido outro qualquer. Mas achei que seria uma bonita homenagem a um lugar onde vivi tanta coisa, um lugar tão marcante.

3- Identifica-se pessoalmente com alguma das personagens? (Se sim, qual e porquê?)

Sim. Tenho muito da Luísa, a Megan é a minha voz da Razão e de resto sinto que estou diluída em todas as outras personagens centrais. 

4- Como define as relações que Luísa estabelece com as pessoas?

Quase ninguém simpatiza com a Luísa. Não me parece que ela seja má miúda, anda é um pouco perdida. Sonha com o bad boy irresistível, mas é uma rapariga como qualquer outra, com necessidades e desejos e aquele receio de o mundo acabe amanhã e “eu não fiz isto, não disse aquilo”. E então, usando uma imagem, acaba por se deixar levar pela corrente da emoção até ficar presa numa rocha e ter de fazer uma escolha. Sabe, se fosse hoje, teria dado outro final à estória... 

5- Sente que faz parte da geração "descrita" no seu livro?

Foto de Cinara Paralta Pisco
Completamente. Em vários sentidos. Sempre quis ser jornalista, mesmo sem saber o que era ser jornalista. Aos 12 anos, tinha tudo planeado, ia estudar jornalismo e fazer televisão. Aconteceu tudo como previa. E, ao fim de 4 anos de jornalismo, descobri que afinal a vida não podia ser só aquilo. É certo que nunca tive a oportunidade de fazer o que mais me apaixonava, que era o desporto, mas ao mesmo tempo senti que queria fazer outra coisa. Que sei bem o que é. E agora tenho de voltar a sonhar e isso dá trabalho. E também tenho as minhas distrações. Os amores, sobretudo os amores, distraem-me bastante. Além disso, sinto que faço parte dessa geração hedonista, que está mais preocupada em viver o agora, e se possível que seja já. E que o Rock nos cure das dores do Mundo. 

6- Porquê a escolha da Coolbooks para editar o seu primeiro livro?

Quando terminei o Ponto Zero, em maio de 2013, creio, corri a enviá-lo a tudo quanto eram editoras de ficção. Já estávamos em agosto, quando recebi um e-mail da Porto Editora a dizer que tinha gostado muito da obra e que queria publicá-la pela Coolbooks. Nem pestanejei. Sendo um projeto novo e tendo como pai um grupo editorial como a Porto Editora, vi ali o ponto 1 de uma carreira literária.

7- De que forma acha que o formato digital em que "Ponto Zero" está disponível poderá condicional a sua leitura?

Há livros que é criminoso ler em formato digital. Não leio um livro do Saramago em formato digital. Não é o caso do Ponto Zero, que se lê em duas ou três horas, apesar de ter uma estrutura não-linear, imensas referências musicais, imensos recursos de estilo... é fácil o leitor dispersar-se. Por outro lado, acho que este sistema de leitura ainda tem de ser melhorado, já li outros livros da Coolbooks e no início não percebi bem como se recuava e avançava, deveria ser mais intuitivo.

8- Em que categoria literária pensa enquadrar-se o "Ponto Zero"?

Não considero o Ponto Zero um romance. Creio que é mais um drama/comédia, no sentido em que tem um enredo dramático, mas uma boa dose de humor, muitas vezes ácido, em igual medida.

9- Gostaria de ver o seu livro editado em formato de papel?

Claro que sim. Por diversas coisas. Em primeiro lugar, por uma questão comercial: o e-book ainda vai demorar a impor-se. E depois, porque gosto de mexer no livro, de o riscar, de o cheirar, enfim... de o sentir. Reconheço que o digital tem imensas vantagens - para quem tem o hábito de ler enquanto come, por exemplo, é mais prático -, mas a minha ambição é o papel. 

10- Se "Ponto Zero" fosse transformado num filme ou série televisiva, que atores portugueses gostaria de ver interpretar os papéis de Luisa e Miguel?

Nunca tinha pensado nisso, embora muitos digam que o Ponto Zero tem um estilo e um ritmo mais fílmicos do que literários. E admito que o meu maior sonho – e é um sonho porque sei que é impossível – é vê-lo adaptado a uma longa-metragem ou minissérie. Desta nova geração, gosto muito da Vitória Guerra e tem algumas semelhanças físicas com a personagem da Luísa. O Miguel é mais difícil... confesso que ele foi inspirado no Dominic Monaghan, que fez de Charlie no Lost. 

Foto da Coolbooks

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